O que é a cárie, de verdade
Cárie não é um bicho que come o dente, nem um buraco que aparece de repente. É um processo químico. As bactérias que vivem na placa, aquela película que se forma sobre o dente, comem açúcar e produzem ácido. O ácido dissolve o mineral do esmalte. Entre uma refeição e outra, a saliva devolve mineral ao dente e o processo se inverte. Cárie é o que acontece quando o ácido ganha essa disputa por tempo suficiente: o dente perde mais mineral do que recupera, o esmalte enfraquece e, em algum momento, cede.
Isso muda duas coisas na forma de pensar. Primeiro: cárie é reversível no começo, enquanto o esmalte só perdeu mineral e ainda não abriu. Segundo: o que importa não é só quanto açúcar você come, é quantas vezes por dia a boca fica ácida. Beliscar doce ao longo da tarde é pior do que comer a mesma quantidade de uma vez, porque a saliva não tem tempo de recuperar o dente entre um ataque e outro.
Os estágios, do primeiro sinal ao canal
Mancha branca
O esmalte perdeu mineral, mas ainda está inteiro. Aparece como uma mancha opaca, esbranquiçada, geralmente perto da gengiva ou entre os dentes. Não dói, não incomoda e quase ninguém percebe. É o único estágio que pode ser revertido sem broca: flúor, ajuste da escovação e da dieta devolvem mineral ao dente.
Cárie no esmalte
O esmalte cedeu e há uma cavidade pequena, ainda restrita à camada externa. Continua sem dor, porque o esmalte não tem nervo. Aqui já é preciso restaurar, mas a restauração é pequena.
Cárie na dentina
Passou do esmalte e chegou à dentina, a camada de baixo, que é mais macia e tem canais que se comunicam com o nervo. A cárie avança mais rápido aqui, e aparecem os primeiros sinais: sensibilidade a doce, a gelado, comida que fica presa num ponto. A restauração é maior, mas o dente ainda é salvo sem tratar o nervo.
Cárie perto da polpa
Está encostando no nervo. Dor ao frio que demora a passar, dor espontânea, dor que acorda de noite. A polpa está inflamada. Dependendo do caso ainda dá para restaurar com proteção do nervo, ou já é preciso tratamento de canal.
Polpa morta e infecção
O nervo morreu. A dor forte pode até passar por alguns dias, o que engana muita gente. Então vem o abscesso: dor à mastigação, inchaço, gosto ruim, às vezes febre. O tratamento é canal, e em dentes muito destruídos, extração.
O esmalte não tem nervo. A dentina tem, mas só avisa quando o estímulo chega perto do centro do dente. Por isso a cárie pode crescer por meses sem nenhum sinal, e por isso quem só vai ao dentista "quando dói" chega quase sempre no estágio 4 ou 5, em que o tratamento é maior, mais longo e o dente fica mais fraco. A consulta de rotina existe para pegar os estágios 1 e 2, que ninguém percebe sozinho.
Sinais para prestar atenção
- Mancha branca opaca perto da gengiva, principalmente em quem usa aparelho.
- Ponto escuro ou marrom no dente, numa fissura ou entre dois dentes. Nem toda mancha escura é cárie (pode ser pigmento), mas merece olhar.
- Sensibilidade a doce, que é mais específica de cárie do que sensibilidade a frio.
- Comida que fica presa sempre no mesmo lugar, ou fio dental que desfia sempre no mesmo ponto.
- Dor ao frio que demora a passar, ou dor que aparece sem estímulo.
- Mau hálito persistente ou gosto ruim localizado.
- Pedaço do dente que quebrou ao mastigar algo comum: em geral a cárie já tinha enfraquecido o dente por dentro.
Cárie entre os dentes e cárie embaixo de restauração antiga são as que mais passam despercebidas, porque não se vê no espelho. Elas são encontradas na radiografia, e é por isso que o dentista pede radiografia interproximal de tempos em tempos, mesmo sem queixa.
Como cada estágio é tratado
- Mancha branca: sem broca. Aplicação de flúor no consultório, orientação de escovação e de dieta, e acompanhamento. Em alguns casos, infiltração com resina para selar o esmalte.
- Cárie no esmalte e na dentina: remoção da parte doente e restauração. Hoje a restauração de escolha é a resina composta, da cor do dente, colada ao esmalte, que exige remover menos dente saudável do que o amálgama de antigamente. Em cavidades muito grandes, uma peça de cerâmica feita em laboratório pode ser mais durável.
- Cárie perto da polpa: quando o nervo ainda está vivo e saudável, remoção cuidadosa e proteção pulpar antes da restauração. Quando o nervo já inflamou de forma irreversível, tratamento de canal e depois a restauração ou coroa.
- Polpa morta: canal, ou extração se o que sobrou do dente não sustenta uma restauração. Nesse caso, a conversa sobre implante ou prótese começa cedo, para o espaço não fechar.
O que segura a cárie, na ordem do que mais pesa
- Frequência de açúcar. Concentre doces e refrigerantes nas refeições em vez de espalhar pelo dia. Suco de caixinha, biscoito recheado e bala são os grandes vilões justamente porque são consumidos aos poucos.
- Escovar com pasta com flúor, duas vezes ao dia no mínimo, sendo uma delas antes de dormir, porque à noite a saliva diminui e o dente fica sem defesa. Cuspir o excesso e não enxaguar com muita água, para o flúor ficar no dente.
- Fio dental todo dia. Cerca de um terço das superfícies do dente a escova não alcança. É ali, entre os dentes, que a cárie invisível cresce.
- Consulta e limpeza periódicas, para pegar a mancha branca antes de virar buraco e para tirar o tártaro que a escova não remove.
- Boca seca é fator de risco. Vários remédios (para pressão, depressão, alergia) reduzem a saliva. Quem usa deve avisar o dentista, porque o risco de cárie sobe bastante.
Cárie em criança
Dente de leite tem esmalte mais fino e a cárie avança mais rápido nele. E sim, precisa tratar: dente de leite com cárie dói, infecciona e prejudica o dente permanente que está se formando embaixo. A Adelar Kids tem uma página inteira sobre cárie em dente de leite, com a quantidade de pasta por idade e o que fazer com a mamadeira noturna.
Na Adelar
A consulta começa por exame completo e radiografias quando indicadas, para achar a cárie que não aparece no espelho. O plano vem por escrito, com o que é urgente e o que pode esperar, e a restauração é feita removendo o mínimo de dente saudável. Se o caso já chegou ao nervo, a clínica tem endodontista na equipe, e o tratamento segue no mesmo lugar.
Revisado por Dra. Mariana Adelar, CRO-GO 16481, responsável técnica da Adelar Odontologia. Publicado em 09/09/2026.