O que tem dentro do dente
Por fora, esmalte. Embaixo, dentina. E no centro, um espaço oco que vai da coroa até a ponta da raiz, preenchido pela polpa: nervo, vasos sanguíneos e tecido vivo. É a polpa que faz o dente sentir frio e quente, e é ela que se inflama quando uma cárie chega perto, quando o dente leva uma pancada ou quando trinca.
Tratamento de canal, ou endodontia, é a remoção dessa polpa doente de dentro do dente, a limpeza e a desinfecção dos canais da raiz e o preenchimento desse espaço com um material que veda. O dente continua na boca, preso ao osso, funcionando. Ele só deixa de sentir temperatura, porque o nervo foi removido.
Quando o canal é necessário
- Cárie profunda que chegou à polpa ou a inflamou de forma irreversível. É a causa mais comum. Veja os estágios da cárie.
- Trauma: pancada no dente, mesmo sem quebrar, pode matar a polpa, às vezes anos depois. O sinal é o dente escurecer.
- Trinca ou fratura que expõe a polpa.
- Restaurações muito grandes ou repetidas no mesmo dente, que ao longo dos anos agridem a polpa.
- Desgaste severo por bruxismo ou erosão, quando a dentina fica tão fina que a polpa se inflama.
- Por indicação protética: às vezes o canal é feito num dente sem dor, porque ele vai receber um pino e uma coroa e não teria estrutura sem isso.
Os sinais de que a polpa está inflamada ou morta
Em ordem de gravidade, mais ou menos:
- Sensibilidade ao frio que passa rápido. Ainda pode ser reversível. Muitas vezes é só uma cárie ou uma retração de gengiva.
- Dor ao frio ou ao quente que demora a passar, dez, vinte segundos ou mais depois de tirar o estímulo. Sinal de inflamação que provavelmente não volta atrás.
- Dor espontânea, sem estímulo, principalmente à noite ou ao deitar. Pulsátil, latejante. É a inflamação aumentando a pressão dentro de um espaço fechado.
- Dor que some de repente. Engana muita gente: a polpa morreu, o nervo parou de avisar. A infecção continua e vai para o osso.
- Dor ao mastigar ou ao bater o dente, sensação de dente "alto" ou "crescido". A infecção já está na ponta da raiz.
- Inchaço na gengiva ou no rosto, bolinha de pus na gengiva (fístula), gosto ruim, às vezes febre. Abscesso.
- Dente escurecido, sem dor nenhuma, meses ou anos depois de uma pancada. Polpa morta silenciosa.
Não. Dor de polpa que some sozinha quase sempre significa que o nervo morreu, não que curou. O tecido morto dentro do dente vira alimento para bactérias, que descem pela raiz e infectam o osso ao redor. Isso pode ficar quieto por meses e voltar como abscesso, com inchaço no rosto, ou continuar destruindo osso em silêncio, visível só na radiografia. Um dente com polpa morta é uma infecção esperando o momento, e o tratamento é mais simples antes desse momento.
O canal dói?
O tratamento é feito com anestesia local, e a regra é simples: não se começa sem o dente estar anestesiado, e se doer durante, para e reforça. A fama de doloroso vem de duas coisas: a pessoa chega com muita dor, às vezes há dias, e associa a dor ao tratamento; e em dente com infecção aguda a anestesia pega com mais dificuldade, o que hoje se resolve com técnicas complementares, medicação prévia ou dividindo o tratamento em duas sessões, tratando a infecção primeiro.
Depois da sessão, quando a anestesia passa, é comum sentir o dente dolorido ao morder por alguns dias, principalmente quando havia infecção. É a inflamação do osso ao redor cedendo, e melhora com a medicação indicada. Dor forte e crescente dias depois não é esperada, e merece contato com a clínica.
Como é o tratamento, passo a passo
Diagnóstico
Exame, teste de sensibilidade ao frio, teste de percussão e radiografia. Às vezes tomografia, quando a anatomia é complexa ou há dúvida sobre trinca. É aqui que se confirma que é canal, e não outra coisa, e que o dente vale a pena ser tratado.
Anestesia e isolamento
Anestesia local e o isolamento absoluto: uma película de borracha que deixa só o dente exposto, impede saliva de entrar nos canais e protege você de líquidos e instrumentos. É item de segurança, não frescura.
Abertura e remoção da polpa
Abre-se um acesso pela coroa do dente até o espaço da polpa, e ela é removida com instrumentos finos.
Limpeza e modelagem dos canais
Cada raiz tem um ou mais canais, às vezes curvos e finos. Eles são medidos (com radiografia e um aparelho eletrônico que localiza a ponta da raiz), limpos e alargados com limas, e irrigados com solução desinfetante. É a etapa mais longa e a que define o sucesso.
Medicação entre sessões
Quando há infecção, um medicamento fica dentro dos canais por uma ou duas semanas, com o dente fechado com curativo provisório.
Obturação
Os canais limpos e secos são preenchidos com um material de vedação, para que nada volte a entrar. Radiografia final confere o preenchimento até a ponta da raiz.
Restauração definitiva
Não é opcional e não é "depois, quando der". Veja abaixo.
Quantas sessões
Dente com polpa viva inflamada, sem infecção, costuma ser resolvido em uma sessão de uma a duas horas. Dente com polpa morta e infecção leva em geral duas a três, por causa da medicação entre elas. Molares, com três ou quatro canais curvos, levam mais tempo que dentes da frente, que têm um só.
O que vem depois: o dente precisa de coroa?
Depois do canal, o dente fica sem a polpa que o hidratava por dentro e, quase sempre, já perdeu muita estrutura para a cárie e para o acesso. Ele fica mais frágil, principalmente os de trás, que recebem a força da mastigação. Por isso:
- Dentes da frente com pouca perda de estrutura podem receber só uma restauração de resina.
- Pré-molares e molares precisam, na grande maioria, de uma coroa, ou de uma peça de cerâmica que recubra as cúspides, para não fraturar. Fratura de dente tratado sem coroa é a causa mais comum de perder um dente que já tinha sido salvo pelo canal.
- Quando sobrou pouco dente, um pino dentro do canal ajuda a segurar a reconstrução antes da coroa.
Deixar o dente com o curativo provisório por meses é o erro mais comum: o provisório desgasta, vaza, as bactérias entram de novo e o canal precisa ser refeito. A restauração definitiva faz parte do tratamento e deve ser feita logo depois de terminado.
Canal ou extração?
Quando o dente tem estrutura para ser restaurado e osso ao redor, o canal é o caminho que preserva o seu dente, e nenhum implante é melhor do que um dente natural bem tratado. A extração fica para quando a fratura vai abaixo da gengiva, quando a raiz está trincada verticalmente ou quando sobrou tão pouco dente que nenhuma reconstrução se sustenta. Nesses casos a conversa sobre implante ou prótese começa cedo, para o espaço não fechar e o osso não se perder.
Na Adelar
A clínica tem endodontista na equipe, com localizador eletrônico de ápice, isolamento absoluto e radiografia digital. A restauração ou a coroa que vem depois é feita na mesma clínica, com o laboratório de prótese dentro dela, sem você precisar contar a história em outro lugar. Conheça a equipe.
Revisado por Dra. Mariana Adelar, CRO-GO 16481, responsável técnica da Adelar Odontologia. Publicado em 09/09/2026.